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SINDICATO DOS TRABALHADORES DA PRODUÇÃO, TRANSPORTE, INSTALAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO DE GÁS CANALIZADO DO ESTADO DE SÃO PAULO

Sarau da CUT-SP mostra que cultura é remédio para racismo

17/11/2015
A luta pela igualdade racial, como qualquer batalha, acontece em diversas frentes. Por isso, tão importante quanto combater o racismo nas ruas é enfrentá-lo com a linguagem popular e universal da cultura. 
Para avançar também nessa trincheira, a CUT-SP promoveu nesta sexta-feira (13) o 1º Sarau da Classe Trabalhadora em sua sede, no bairro do Brás, em São Paulo. Mais de 60 artistas se revezaram no palco em apresentações de música, poesia, teatro e dança.  
O encontro que começou no 14º CECUT (Congresso Estadual da CUT), em agosto, e vai se transformar em uma agenda permanente, abriu a série de atividades que a Central promoverá para celebrar o Mês da Consciência Negra.  
Antes dos artistas de diversos ramos e categorias subirem ao palco, dirigentes e um representante da prefeitura de São Paulo falaram sobre a importância de a maior central sindical do país ter uma pauta de combate à discriminação, parte da construção de uma sociedade justa e igualitária. 
Presidente nacional da CUT, Vagner Freitas, apontou que o racismo não é só uma convenção cultural e sim mais uma arma que o capitalismo encontrou para retirar direitos e que se manifesta de maneira muito clara no mercado de trabalho. 
“O trabalhador negro trabalha o mesmo ou mais que o branco, mas ganha muito menos e o papel da CUT é acabar com isso. O mês da Consciência Negra é de enfrentamento, para mostrar que nos opomos a isso”, disse.
 
Herdeiros da discriminação
 
Ao falar dos negros capturados na África e trazidos ao país para serem escravizados, o presidente da CUT-SP, Douglas Izzo, ressaltou que, apesar de oficialmente extinta, ainda há resquícios da escravatura na sociedade brasileira se manifestando cotidianamente. Seja por meio da ausência de políticas, seja pela presença da polícia. 
Pestana, Douglas, Maria Júlia e Vagner durante abertura do Sarau (Fotos: Jordana Mercado)Pestana, Douglas, Maria Júlia e Vagner durante abertura do Sarau (Fotos: Jordana Mercado)“No estado de São Paulo, além de termos uma política de racismo em áreas como a educação, ainda temos na segurança um verdadeiro genocídio contra os jovens negros da periferia”, criticou. 
Mas se o estado comandado pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) não oferece alternativas, na cidade de São Paulo, onde foi criada a Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial de São Paulo (SMPIR) durante a gestão de Fernando Haddad (PT-SP), o debate sobre o racismo se faz presente. 
Novembro será um mês de várias atividades que se estenderão até 5 de dezembro, dia em que um grande seminário celebrará o centenário do samba. O período terá como destaque encontros entre os dias 16 e 20 de novembro, resultados de uma parceira entre a prefeitura e a CUT-SP, que discutirão discutir temas como a juventude e as mulheres no mercado de trabalho sob o recorte racial. (Clique aqui)
 
Sem ressarcimento
 
Representante da prefeitura paulistana na abertura do Sarau, o secretário da SMPIR, Maurício Pestana, lembrou da dívida que o país têm com os negros, ainda distante de ser paga. 
“Desses últimos 515 anos de Brasil, 380 foram construídos com mão de obra escravizada. A lei mais curta que temos, a Lei Áurea, extinguiu oficialmente essa forma de dominação, mas não ressarciu os negros. E até o início deste século, não havia políticas públicas para isso”, falou. 
A partir do governo do ex-presidente Lula, em 2003, avaliou, medidas como as cotas e o ProUni (Programa Universidade para Todos) mudaram a cara da Academia. Em 15 anos, lembrou o secretário, o número de universitários negros saltou de 2% para 20%. 
A transformação desse cenário, porém, incomoda a quem sempre teve espaço cativo baseado na exploração e na desigualdade. “O racismo se recrudesce e está mais exposto porque ascendemos. Mas vamos continuar lutando. A SMPIR, em São Paulo, criou a lei de cotas e já tem mil funcionários afrodescendentes”, exemplificou.  
Heróis – Conforme destacou a secretária da CUT de Combate ao Racismo, Maria Júlia Nogueira, a luta também acontece no combate à invisibilidade da história e da cultura afro-brasileira, ainda que uma lei de 2003 (Lei 10.639/03) obrigue o ensino desses valores nas escolas de ensino médio e fundamental. 
“O mês de novembro representa uma grande conquista, porque se formos olhar a história deste país, somente um herói negro, Zumbi dos Palmeiras, é cultuado, no dia 20 de novembro. Temos outros e outras, mas continuam esquecidos, porque a história que nos contam não permite que sejam apresentados”, apontou a secretária da CUT de Combate ao Racismo, Maria Júlia Nogueira.
 
1º ato
 
Da obra de uma mulher negra, empregada doméstica, lavradora, catadora de papel e escritora saíram interpretações de trabalhadores municipais que relataram, por meio da leitura, a realidade vivida pela lutadora Carolina Maria de Jesus, nascida em 1914 em Minas Gerais e que, nos anos de 1947, migrou para São Paulo. 
A apresentação do grupo teatral do Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo, dirigida por Mauro Schames, abriu a noite do sarau. A escolha do texto não poderia ser outra. Com seu livro "Quarto de Despejo", Carolina retratou a vida na antiga favela do Canindé, próximo ao estádio da Portuguesa.Dora Nunes, que está há 20 anos no grupo de teatro Opereta Dora Nunes, que está há 20 anos no grupo de teatro Opereta. 
 “... Pensei nas palavras da mulher do Policarpo que disse que quando passa perto de mim eu estou fedendo bacalhau. Disse-lhe que eu trabalho muito, que havia carregado mais de 100 quilos de papel. E estava fazendo calor. E o corpo humano não presta. Quem trabalha como eu tem que feder!”, disse uma das atrizes, ao narrar a fala de Carolina, que morreu em decorrência de uma crise de asma, em 1977. 
A escritora foi exemplo de superação da discriminação racial e hoje ela dá o nome à biblioteca do Museu Afro Brasil, localizado no Parque do Ibirapuera.
 
2º ato
 
A segunda apresentação da noite foi do Núcleo Teatral Opereta, da região de Poá. Com canto e interpretação apresentaram Arena canta Zumbi, musical de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal. 
O espetáculo iniciou com uma saudação à Iemanjá, orixá conhecida como a rainha do mar, símbolo de geração e de criatividade nas religiões de matriz africana. 
A atriz de 69 anos, Dora Nunes relata que está no grupo há 20 anos e, desde então se emociona com o espetáculo. “Sou filha de pai preto e mãe branca e já vi muita situação de racismo. Há 49 anos eu me lembro de uma vaga de trabalho que fui tentar junto com uma amiga minha para ser cobradora de ônibus. Eu fui escolhida naquela época, tenho certeza, porque eu tinha a pele mais clara”. 
Para a atriz Patty Nascimento, a obra da década de 1960 ainda é atual. “A operata trata da luta de Zumbi por uma vida sem escravidão. É isso. O teatro é uma linguagem artística que pode trazer reflexão a quem assiste. Fazer as pessoas entenderem que é a formação e a unidade que ajudarão a vencer o preconceito”. 
 
3º ato
 
Aos 63 anos, o servidor municipal Onofre Vieira, conhecido pelo nome artístico de Brazinho, percorreu 560 km de Presidente Prudente para a capital paulista para cantar seu samba e entregar o sorriso de um trabalhador que se aposentou da carreira no dia anterior. Mais um exemplo de que a arte educa, conscientiza e tem muito a falar sobre política, igualdade e luta. 
“O samba é uma criança que eu quero cuidar e a arte representa o combate à discriminação de um povo negro que sofreu muito e ainda sofre”, afirmou.

   
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